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Dia do Orgulho LGBT+: conheça a dupla batalha de quem enfrenta o racismo e a homofobia | Vale do Paraíba e Região


Violência, discriminação e preconceito. Ser LGBT+ no Brasil já é considerado um desafio, mas quando se é um jovem negro e de periferia, além de enfrentar a homofobia, é preciso ainda enfrentar a barreira racial.

Neste 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBT+, o G1 conta a trajetória de três jovens negros, que falam sobre sua luta diária para serem aceitos pela família e respeitados pela sociedade, independentemente da cor da pele ou da forma de amar.

João Vitor Souza, negro, da periferia e gay, conta sobre o desafio de enfrentar o racismo e a homofobia. — Foto: Arquivo pessoal

João Vitor Souza, 20 anos, negro e gay. Ele cresceu no Dom Pedro I, um bairro periférico na zona sul de São José dos Campos. Sua infância foi difícil, marcada por perdas e violência. Aos 14 anos começou a trabalhar para ajudar a família e mais do que a preocupação em levar dinheiro pra casa, ele tinha medo de não conseguir chegar vivo.

“Como em todas as periferias, a minha maior preocupação era a de voltar vivo pra casa e não entrar para as estatísticas dos jovens negros que perderam suas vidas pela violência da sociedade e do Estado”, contou.

Foi aos 15 anos que ele iniciou seu processo de descoberta e aceitação como um homem gay. Contar para os pais sobre sua sexualidade foi algo difícil, pois ele vinha de uma família religiosa, que não o aceitava e o tratou durante anos como um tabu, uma fase rebelde que passaria. Mais dolorosa do que a reprovação dos pais, foi a homofobia que enfrentou fora de casa, que quase sempre veio acompanhada de violência.

“Minha adolescência foi marcada pela homofobia. Na escola não me encaixava nos grupos e era sempre alvo de piadas. Em 2018 fui vítima do meu primeiro ataque que envolvia agressão física. Fui abordado por dois rapazes, eles me enforcaram, me deram murros no rosto e na barriga e, por fim, levaram meu celular. Hoje ainda sou alvo de ataques homofóbicos, seja nas minhas redes sociais ou na dificuldade de ser aceito em locais de trabalho. Lidar com o preconceito nunca é fácil, é doloroso e desesperador”, contou João.

Para João, quando se é um LGBT negro o preconceito enfrentado na rua é ainda maior, com um sentimento de impotência e insegurança constante, mas ao longo de sua trajetória João conta que precisou ir criando um escudo, para que não se abalasse com as ofensas que recebe. Hoje, apesar de todo preconceito que ainda lida, ele consegue se sentir feliz e está em uma união estável.

“Ser negro e gay em um país racista e homofóbico é sinônimo de resistência. O dia do Orgulho LGBT+ nos lembra que nós estamos avançando cada vez mais e que com muito amor podemos vencer. Sinto muito orgulho de poder construir uma vida ao lado do meu companheiro e do espaço que estamos conquistando na sociedade. Quebrar as barreiras do preconceito é poder amar. Se existisse escolha, escolheria ser exatamente assim”, disse João.

Ariel Vicente de Oliveira, negro e homem transexual, conta sobre o desafio de enfrentar o racismo e a homofobia. — Foto: Arquivo pessoal

Ariel Vicente de Oliveira, 26 anos, é joseense, negro e um homem transexual. Nasceu e cresceu no Bosque dos Eucaliptos, em São José e atualmente cursa faculdade de pedagogia em uma universidade estadual. Sua infância foi complicada, no início foi criado por pais adotivos que cuidavam dele com dedicação, mas depois foi preciso voltar a morar com os pais biológicos, em um ambiente familiar frio e sem afeto. Foi sozinho que ele descobriu que nasceu no corpo errado e iniciou o processo de transição, enfrentando o preconceito da família.

“Meu processo de transição foi bem difícil, porque aos 14 anos me identificava como uma mulher lésbica, mas não me sentia completo e forçava uma feminilidade que não era minha. Somente aos meus 21 anos que me permiti ser quem sempre fui, renasci e o Ariel veio a tona”, disse.

Apesar da libertação que foi se assumir como um homem transexual para a família e a sociedade, ele não tinha condições financeiras para completar sua transição física e o ódio e a violência que passou a receber se fez cada vez mais presente dentro e fora de casa.

“A transição em si já é algo bem difícil e desgastante, mas quando não se tem privilégios para fazer as coisas do jeito que queremos é mais complicado. As pessoas me mediam de cima a baixo e quando comecei a tomar hormônios esses olhares pioraram. Quando entrava no ônibus olhavam diretamente para minhas partes íntimas e sentia meu corpo invadido. Cheguei a apanhar na rua por causa da transfobia e continuo enfrentando preconceito até hoje”, contou.

Além do preconceito de gênero, Ariel enfrenta também o racismo. Quando era mais jovem os traços físicos e a cor de pele eram um problema para ele, que não conseguia se aceitar e sonhava em um dia poder mudar, seja por meio de cirurgias plásticas ou remédios.

“Nunca me aceitei como um negro de pele clara, mas quando comecei a viver o preconceito por ser negro que parei para refletir que se eu fosse visto como branco pela sociedade, não passaria por essas situações de racismo e constrangimento. Mesmo que minha pele seja clara, o peso do preconceito racial sempre foi grande pra mim.”, afirmou.

Apesar dos desafios que enfrenta por ser um homem negro e transexual, Ariel tem esperança de que a sociedade vai mudar e é dentro de casa, com os sobrinhos pequenos de apenas três anos, que ele recebe apoio e respeito.

“Ninguém nasce odiando ninguém, as pessoas são ensinadas a isso. Se alguém não consegue lidar com as diferenças, precisa ser reeducado. Não quero perder mais amigos por causa de preconceito alheio, não quero ver mais um dos meus morrendo. A gente merece viver e ser feliz assim como qualquer outra pessoa e não podemos permitir que nossa existência seja negada pela sociedade”, afirmou Ariel.

Maah Fernandes, mulher, negra, DJ e lésbica, conta sobre o desafio de enfrentar o racismo e a homofobia. — Foto: Arquivo pessoal

Mayara Fernandes, 27 anos, DJ, negra e lésbica. Ela é joseense, mas atualmente mora em Taubaté. Dentro de casa, a Maah, nome artístico adotado por ela, sempre teve muito apoio e aceitação, um privilégio dentro da comunidade LGBT, que geralmente enfrenta dificuldades em se assumir pra família, por medo de reprovação.

“Quando você se descobre diferente no primeiro instante é complicado, até entender que isso é normal tem um pré-julgamento nosso, mas minha família me aceitou bem e nunca colocou nenhum empecilho para mim. Ter minha avó ao meu lado, me aceitando de uma forma mais compreensiva é uma grande conquista”, disse.

Apesar do apoio da família, sua trajetória como mulher negra sempre foi cercada de provações, sendo alvo do machismo e do racismo e, desde que se assumiu lésbica, os desafios se tornaram maiores.

“O fato de ser uma mulher, negra e DJ já é algo que pesa bastante, mas quando se é lésbica os julgamentos e cobranças são maiores. Você é vista com outros olhos, até provar quem você é. Felizmente nunca fui vítima de homofobia, pois sou muito reservada sobre a minha sexualidade, mas já fui vítima de racismo. Foi um acontecimento que me marcou e vai ficar registrado pra sempre em mim. É um sentimento muito ruim recordar, mas a nossa luta é trabalhar para que isso não aconteça novamente com ninguém”, afirmou.

Para ela, o preconceito contra os negros é algo enraizado, por vezes um racismo velado, que se esconde por trás de olhares e ações. Ainda de acordo com ela, se impor diante dos julgamentos é algo difícil, mas necessário para que os negros não tenham medo de existir e recebam o respeito que merecem.

“No Brasil o negro sempre é visto como o empregado, o inferior. As pessoas te dão migalhas e acham que você precisa aceitar isso, o negro precisa mostrar mil vezes que é capaz de fazer algo, para ser respeitado. As pessoas deveriam parar de nos rotular, abrir a mente, dar oportunidade para os negros e os LGBTS, ter um cuidado maior com o que falam, em como nos olham, ter empatia com os outros”, disse.

Ela aposta na arte contra o racismo e a homofobia. Fugindo dos padrões, ela deseja conquistar um espaço maior como DJ, para levar sua música a mais pessoas e ser um espelho para outras pessoas negras.

“Ser uma mulher negra e lésbica sempre foi uma luta muito grande. Eu continuo lutando e resistindo. O Dia do Orgulho LGBT+ é uma data a ser celebrada, porque é um dia que somos vistos, que temos voz”, afirmou.



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